Mulheres no ciclismo: a incrível história de Gisele Gasparotto

Mulheres no ciclismo: a incrível história de Gisele Gasparotto

Prazer, Gisele Gasparotto. Tenho 42 anos, sou empresária, atleta profissional – ciclismo de estrada, filha, Mãe e fundadora da LuluFive; assessoria esportiva focada em ensinar o público feminino a pedalar, manusear e controlar uma bicicleta estilo “road” ou também conhecidas como bike de speed ou bike de estrada. A LuluFive ainda trabalha para a participação de ciclistas em provas de ciclismo aqui no Brasil e mundo afora. Posso afirmar tranquilamente: hoje (2022) a LuluFive não é apenas uma marca que é referência no ciclismo feminino, mas sim uma comunidade, um grupo de mulheres empoderadas que sabem muito bem o que querem e que possuem na bicicleta algo em comum: prazer em viver. 

Sobre oportunidades e saber agradecer

O que eu escrevo nesse texto não é apenas sobre o ciclismo feminino. Mas sim, sobre como a bicicleta tem um grande poder de transformação positiva em nossas vidas. Não só na minha, mas na sua vida! Bora lá! 

Durante toda a minha vida eu tive excelentes oportunidades para crescer como Mulher e como cidadã. E claro, toda história tem o seu início. Confesso que eu sou privilegiada sim. Porém, também sou muito grata! Cresci em uma família de classe média na cidade de São Paulo e sempre tive muitas oportunidades desde pequena: estudar em boas escolas, aprender outros idiomas, viajar e conhecer diferentes países e suas culturas, e claro, praticar muitos esportes. Só para constar: eu ainda tenho na memória as roupas que usava nas aulas de Ballet e Jazz quando era pequena.

“Bike não é coisa de menina”

Por algum tempo, eu cresci escutando que bike não era “coisa de menina”. Mas, apesar de ter aprendido a me equilibrar em uma bicicleta desde criança, essa não era a minha brincadeira preferida. Entretanto, eu sempre gostava das brincadeiras dos “meninos”. Adorava jogar bola, andar de skate, patins e ainda com com 10 anos eu comecei a fazer natação. Anos depois, eu consegui entrar para o no time de Handebol e  Vôlei da escola. Após terminar o colégio, eu continuei nadando e fazendo musculação até a minha graduação na faculdade de administração em 2005.

O retorno da Magrela

A bike retornou na minha vida apenas em 2005, quando um pouco por impulso, decidi comprar uma bicicleta, a magrela era uma MTB da Sundown. A ideia era usar a bike para ir ao trabalho pois não aguentava mais o trânsito de São Paulo. Não foi fácil trocar a comodidade e o conforto do carro por uma bike, mas, eu estava determinada a conseguir. Entretanto, eu também respeitei a minha vontade e fui seguindo o meu caminho sem pressão. Coloquei metas e fui perseguindo, até que um dia, o pedalar se tornou um hábito.

Uma pausa necessária, porém, apenas uma pausa

No final de 2007 eu dei uma parada com a bike. Fiquei grávida da minha filha, a Maria Clara (que hoje tem 13 anos). Foi um período difícil pois a  minha gravidez não foi das mais tranquilas. Voltei a pedalar no final de 2009, quando eu me divorciei. Certamente eu estava precisando de algo que me ajudasse a superar uma separação: estava com uma filha de apenas um ano e meio de idade e 8 anos de casamento. Foi nesse momento que eu comecei a levar a bike mais a sério.

O retorno da Fênix (pássaro da mitologia grega)

Em um piscar de olhos eu estava participando de provas amadoras. A mudança para o ciclismo profissional foi um pulo. Digo, profissional, porque comecei a competir em provas com a  elite do ciclismo brasileiro. Eu ainda não estava pronta para vencer as adversárias. Tecnicamente eu tinha muito o que evoluir.

Mas, essa era a única opção na época: se eu quero ser uma ciclista profissional… então eu preciso competir com a nata do ciclismo de estrada brasileiro e estar entre as melhores. Com  esse movimento, eu comecei a exigir cada vez mais do meu corpo e dos meus resultados, para ter condições de competir de igual para igual com outras mulheres que já estavam na Elite do esporte.

Uma vida dupla: o ciclismo de estrada profissional + escritório 

Eu logo me apaixonei! Os treinos puxados, as provas cada vez mais difíceis, o ambiente competitivo, a experiência, a comunidade criada, as boas pessoas que eu conheci e que me auxiliaram, e claro, os desafios que viriam pela frente!

Mas, eu ainda não estava 100% dedicada apenas ao ciclismo de estrada. Eu continuei com o meu trabalho na empresa de seguros (Ifaseg) e conciliava os meus treinos em cima da bike e na academia, diariamente. Por 13 anos eu compartilhei o trabalho dentro de uma corretora de seguros, vestindo roupas mais sociais, com capacete, Bretelle, jersey e sapatilha de ciclismo. Eu levei muito a sério os dois mundos. Hoje eu posso afirmar para vocês: não foi simples e muito menos fácil.

A hora da grande mudança 

Nesse momento, eu também sofri com a reprovação dos amigos, que eu achava que eram Amigos… que não curtiam a bicicleta, não pedalavam e muito menos me apoiaram. Sim, eu perdi amigas, mas também ganhei outras amizades de qualidade!

Com o tempo eu fui conhecendo outras mulheres incríveis e vou confessar algo muito bacana para vocês: eu sempre sonhei em ver muitas mulheres pedalando. Mas não um grupinho de 100 mulheres. Eu sonhava em ver um pelotão feminino competitivo, em ver mulheres ganhando provas internacionais que antes só existiam em versão masculina, como o Tour de France ou a clássica Paris – Roubaix. E claro, eu também sonhava que as mulheres precisam descobrir a bicicleta para o seu dia a dia, para a mobilidade! A bicicleta é muito boa para ser apenas um esporte! 

Me lembro como se fosse hoje! Em 2014 eu decidi tirar todos esses sonhos da minha cabeça! Foi então que eu direcionei toda a minha energia e voz para as mulheres que praticavam o meu amado esporte, o ciclismo de estrada feminino. Tomei iniciativa e formei uma equipe mista, com ciclistas profissionais de diversas equipes, um time brasileiro com gente de tudo quanto é lugar,  para participar de uma Volta Ciclística Feminina na Costa Rica (que inclusive era válida para o ranking da mais importante organização do ciclismo mundial, a UCI). E vou afirmar para vocês: foi um baita orgulho! Eu consegui formar a primeira equipe mista (com atletas de diferentes times) de ciclismo de estrada na história do Brasil. O resultado da competição na Costa Rica: um 9º lugar no geral.  

O início da LuluFive – ciclismo feminino levado a sério

Eu participei ativamente de grupos exclusivos para mulheres até novembro de 2016, quando eu dei início ao meu maior desafio, a   LuluFive: um projeto ambicioso (até hoje) que tinha como objetivo passar o meu conhecimento técnico e prático para mulheres ciclistas. Eu também queria retribuir um pouco do que o ciclismo tinha feito por mim até aquele momento. Com o passar dos meses após o início do projeto (janeiro de 2017), eu percebi que existia um outro mercado para trabalhar: a Iniciação de mulheres no ciclismo de estrada. Foi nesse momento que a LuluFive se tornou a principal marca de ciclismo feminino do Brasil e uma referência para todas as mulheres que querem pedalar ou já pedalaram.

Daqui para frente, eu quero ser muito feliz com o ciclismo

No final de  2018 eu tive uma conversa com meus sócios na empresa de seguros que eu trabalhei por 20 anos. Entrei na Ifaseg com 17 anos de idade. Expliquei a todos, que no momento eu precisava dar uma das “pedaladas” mais importantes da minha vida: seguir o meu sonho e poder me dedicar 100% a um negócio que estava transformando minha vida para melhor. Em dezembro de 2018 eu terminei minha sociedade na empresa de seguros. Até hoje sou apaixonada pelo que faço. Todas as minhas ações dentro da LuluFive são pensadas com muito amor e dedicação.

Hoje posso afirmar tranquila: Vivo do ciclismo e para o ciclismo! E digo mais, sou muito feliz, principalmente por ajudar muitas mulheres a transformar suas vidas através do ciclismo, assim como a minha foi transformada. Bora pedalar e ser feliz! Vem comigo!

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